Policial

Vingança por morte de primo motivou ‘Chacina do Benfica’, aponta investigação da Polícia Civil do Ceará

Os envolvidos na matança e o alvo principal cresceram juntos no mesmo bairro.

Investigações realizadas pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) apontam que a”Chacina do Benfica”, ocorrida em março de 2018, em Fortaleza, teria sido motivada especialmente por vingança pela morte do primo de um dos réus. Os envolvidos na matança e o alvo principal daquela fatídica noite – que não foi encontrado pelos algozes – cresceram juntos no bairro e se distanciaram em razão das filiações diferenciadas a facções criminosas rivais, que disputam territórios na capital cearense.

A chacina aconteceu no dia 9 de março do ano passado, no Bairro Benfica, em Fortaleza. Na matança, sete pessoas foram executadas e três ficaram feridas em três locais diferentes da região: a Praça da Gentilândia, a Vila Demétrio (nas proximidades da sede da Torcida Uniformizada do Fortaleza – TUF) e o cruzamento das ruas Joaquim Magalhães e Major Facundo.

Segundo as investigações da Polícia Civil, cinco pessoas participaram ativamente do crime; três delas estão presas, uma não foi identificada e ainda um adolescente, cuja apreensão não foi confirmada pela Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo. As apurações do crime mostram uma série de provas materiais que sustentam a tese de acusação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

O processo sobre a chacina, que tramita em segredo de Justiça na 5ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza e já dispõe de mais de 3,2 mil páginas, foi obtido pelo G1. Os autos revelam os pormenores das mortes nos três locais do bairro.

No fim do mês de abril, os réus da ação (Douglas Matias da Silva, Stefferson Mateus Rodrigues Fernandes e Francisco Elisson Chaves de Souza) foram pronunciados pela Justiça. Eles deverão ser julgados por sete pessoas em um Tribunal Popular do Júri e podem ser condenados a quase 285 anos, 285 anos e 165 anos, respectivamente. Os três deverão responder por homicídio, homicídio tentado e organização criminosa.

Vingança

Embora as facções criminosas façam parte do pano de fundo da organização e tenham atuação direta na matança, a trama está longe de ser explicada unicamente por esses grupos. A principal linha de investigação relativa à motivação, confirmada por testemunhas e pelo réu Stefferson Fernandes, sugere que houve uma trama de vingança que relaciona o alvo principal da chacina a outro assassinato ocorrido na região.

Exatamente um mês antes dos crimes, em 9 de fevereiro de 2018, Jorge Luis Rodrigues da Silva, de 25 anos, foi morto no Bairro de Fátima, cujos limites territoriais com o Benfica se confundem. Jorge Luis era primo do réu Stefferson Fernandes. Conforme as investigações da Polícia Civil, Stefferson e seus comparsas culpavam Geovane Diogo Silva Oliveira pelo homicídio do primo. Por isso, ele se tornou um alvo.

Uma semana antes da chacina, após sair do sistema carcerário cearense, onde cumpria pena por porte ilegal de arma de fogo, Geovane Oliveira voltou a frequentar espaços do Benfica, como a Praça da Gentilândia e a Rua Joaquim Magalhães, nas proximidades da sede da TUF. Os réus receberam as informações do paradeiro de Geovane e, segundo as apurações criminais, foram aos locais dos crimes em busca dele.

O alvo da noite de sexta-feira no Benfica seria, principalmente, Geovane Oliveira, mas ele não estava na região. Após chegarem ao local e não localizarem o desafeto, os criminosos encontraram lá o primo dele, José Gilmar de Oliveira Júnior, de 33 anos, com passagens por roubo e posse de drogas. Alvo de nove tiros, o homem foi o primeiro a ser assassinado no massacre. As duas outras vítimas da Praça (Antônio Igor Moreira e Silva, 26, e Joaquim Vieira de Lucena Neto, 21) não tinham relação com a vingança.

Em depoimento concedido à Polícia Civil após sua prisão, Stefferson Fernandes assumiu a autoria do atentado contra José Gilmar, o primo de Geovane Oliveira; ele disse que “descarregou seu revólver” no homem naquela noite. Além disso, a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) atestou que os disparos que mataram José Gilmar não saíram apenas de uma arma de fogo, o que corrobora a participação de outra pessoa no assassinato.

Stefferson Fernandes e José Gilmar, inclusive, já haviam sido denunciados pelo Ministério Público por uma tentativa de assalto, ocorrida em 2010. Segundo o MPCE, esse delito demonstra aproximação entre eles e pode ajudar na narrativa construída para condenar o réu por motivação torpe.

Ato contínuo

Após a matança na Gentilândia, sem ter encontrado Geovane Oliveira, o grupo criminoso saiu em direção às proximidades da sede da TUF e, no local, perguntou novamente pelo desafeto. Não encontrando-o, eles mataram mais dois jovens que teriam sido identificados como integrantes da facção rival. Contudo, Adenilton da Silva Ferreira, 24, e Carlos Victor Meneses Barros, 23, não pertenciam a nenhum grupo criminoso, bem como não tinham antecedentes criminais.

No terceiro ponto, no cruzamento das ruas Joaquim Magalhães e Major Facundo, também no Benfica, os homicidas avistaram outros dois supostos inimigos e confundiram Emilson Bandeira de Melo Júnior, 27, com um homem chamado “Everton”. Ele vinha na garupa de uma motocicleta pilotada por Pedro Braga Barroso Neto, 22, após ambos terem ido comprar bebida alcoólica em um bar. Eles foram atingidos pelos disparos do grupo criminoso e foram as duas últimas vítimas da noite.

Infância

A relação entre os réus da Chacina do Benfica e o alvo principal que não foi morto no dia 9 de março é de longa data. Douglas Matias, Stefferson Fernandes, Elisson Chaves e Geovane Oliveira se conheciam desde a infância. Eles moravam no limite entre os bairros Benfica e Fátima e acabaram crescendo juntos, mas enveredando pelo mundo do crime, como aponta a investigação.

Embora os réus neguem que eram amigos de infância de Geovane, este afirmou, em depoimento, que “conhecia os três acusados e teve amizade com eles na infância”. Elisson Chaves respondeu, em juízo, que “eles todos cresceram juntos, inclusive Geovane”. Conforme o próprio “Geo”, o motivo da inimizade dele com os acusados “seria ‘guerra de facção'”, pois eles são de grupos criminosos divergentes, disse em depoimento à Polícia Civil. Os demais não se pronunciaram sobre a razão do rompimento da amizade.

G1 entrou em contato com a Defensoria Pública, que é responsável pela defesa dos três réus, mas a assessoria informou que não iria se pronunciar sobre o caso. A defesa de Geovane Diogo Silva Oliveira não foi localizada. O MPCE também foi contatado, porém o promotor responsável pela denúncia não quis gravar entrevista.

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